Para ser lido ao som de Milton Nascimento - Bailes da Vida
Minha alma cheirava a talco.
Subi naquele palco.
E nem precisa ser clarividente para ver que ali é de fato
o meu lugar.
Coube-me tão bem.
Um segundo ventre, colo, berço.
Tudo começou na véspera do meu aniversário,
Ele me esperava em cima da cama.
Embrulhado com um papel roxo.
Queria simbolizar a comemoração do meu nascimento.
Comemoração dos meus 15 anos de existência e eu não
queria valsa, nem debutante.
Queria um amigo que me acompanhasse a frente aos refletores.
Mal sabia que na verdade tinha nascido ali, naquele
momento.
O parto foi concretizado no momento que rasquei o papel
Vi o violão, descobri o meu oficio.
E assim. Foi no quarto ensaiava "Minha Fé"
Prenúncios de fé e arte interligadas em prol de uma mesma
causa.
Aprendemos juntos, crescemos juntos.
Ao nosso som e ao som dos nossos ídolos.
Em busca do caminho que vai dar ao sol.
Parceria perfeita.
6 anos se passaram.
Eis que chega o grande dia.
Meu segundo nascimento.
O tão esperado.
Quis ser leve.
Quis ser certa.
Quis pela primeira vez ser verdadeiramente eu.
Não me intimidar com os olhares, e todas aquelas luzes.
As mãos gélidas anunciava a importância de toda espera.
Sussurrava orações de calmaria.
Na plateia pessoas queridas que torcem por mim.
No corredor de espera Tom Jobim, Cartola, Milton entre
outros ídolos,
Emoldurados na parede viam minha afiliação de aprendiz.
Sorri para eles, sorri pra doçura da cena, sorri de mim
mesma.
Na foto eles também sorriam pra mim.
Busquei tranquilidade naqueles mestres, e pedi licença e
permissão para dividirmos o mesmo oficio, para pisar naquele altar divino.
Andava de um lado pro outro, e o filme dos 6 anos na
cabeça.
Coração na garganta, e eis que chega a hora de subir no
palco.
Olho para os meus mestres, digo-lhes: É agora, vamos
juntos no mesmo tom?
Fiz a oração aprendida ainda na infância, e dei 11 passos
até o palco.
Respirei fundo, pé direito, depois o esquerdo, coluna
ereta, ouvi os tais sinos imaginários.
Aqueles que sempre tocam para sinalizar o alinhamento dos
astros, ponto de equilíbrio, encontro de alma, coisas mágicas concretizadas,
quando Deus aparece.
Peguei o meu velho companheiro, coloquei junto ao peito e
sussurrei:
Sou eu e você agora parceiro, vamos ser alma, vamos fazer
arte, vamos ser um.
Em cima do palco éramos dois, mas sendo a voz de muitos,
de todos que acreditaram em mim.
Que acreditaram na menina tímida, calada, que gostou de
brincar com as palavras musicadas.
O primeiro acorde, primeiro verso, aplausos, arrepio pelo
corpo inteiro, uma alegria jamais sentida antes.
Não tive medo dos olhares, nem das luzes, olhei e sorri
pra tudo isso.
Pela primeira vez me entreguei por completo e
publicamente sem trancas.
Expus meu corpo e alma, e ainda agradeci os olhares ao invés
de fugir.
Me vejo e desconheço.
Essa sou eu, gostei do que vi, sou música.
Fui leve.
Ultima música, aplausos finais, agradecimentos finais.
Missão cumprida.
Encho os pulmões de ar, e o coração com a certeza de que
eu quero isso pra toda vida.
Volto pra casa, diferente de como sai.
Como um rio que desagua no mar.
Com a roupa encharcada e a alma
Repleta de chão
Repleta de chão





